Ao fim da última peça, a platéia aplaudiu discretamente a estranha orquestra sinfônica da Tanzânia. Por pouco não perdi a elegância e caí no riso quando o maestro meio-orc agradeceu as palmas com um largo sorriso que exibiu suas presas amarelas medonhas e assustou uma senhora na primeira fila. Será que aquela gente fazia idéia de onde fica a Tanzânia? Bom, certamente não passariam as férias lá depois de ver aquela pianista que tinha duas mãos para tocar e uma outra só para cutucar as orelhas, ou aqueles violinistas de narizes desproporcionalmente grandes. Se bem que, por outro lado, os argentinos também têm narizes desproporcionalmente grandes, e ainda assim é chique ir a Buenos Aires nas férias. É isso, fui injusto com a Tanzânia.
Quando me retirava da sala, o homem de meia idade que me observara gravemente durante a apresentação se aproximou ao ponto de uma fileira de distância. No momento em que nos cruzamos, disse sem olhar diretamente para mim:
– Caminhos amargos...
– ... à sombra do moinho. – respondi também sem olhar para ele. – Trouxe a carta comigo. Quer levá-la agora?
– Os planos mudaram. A carta não estará mais segura aqui, e você também não – com a mão sobre minhas costas, forçou-me desconfortavelmente a andar. – Viu as criaturas? Por mais ridículas que sejam, já nem têm mais o trabalho de se esconder.
– Pensei que tivéssemos tudo sob controle! – disse olhando em volta, confesso que um pouco assustado.
– Haverá um carro esperando por você na saída, ele o levará ao aeroporto. O motorista tem uma passagem para o sul e... vamos andar mais depressa – agora ele olhou para os lados, preocupado –, o vôo parte em menos de uma hora.
– Mas as minhas coisas estão no hotel!
– Tentamos pegá-las para você, mas eles puseram fogo no hotel antes. Havia algo importante lá? – já descíamos as escadas fora do prédio.
– Não. Quero dizer – eu estava nervoso –, eram coisas pessoais. Isso é ridículo! Estamos fugindo de criaturas medíocres!
Paramos frente a um carro preto. A porta se abriu e ele me empurrou para dentro. Bateu a porta e depois se curvou, passando a cabeça pelo vidro entreaberto.
– Metade dos nossos melhores homens foram mortos desde a noite passada – disse –, e a outra metade não deve passar de hoje à noite. Reze para não derrubarem seu avião e esconda-se. Nós te acharemos. Se ninguém te procurar em seis meses, queime a carta.
O motorista deu a partida.
– Desde já se considere um homem morto.
Ele se afastou da janela e o carro começou a andar. Nos olhamos até a primeira curva, até nos perdermos de vista.