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13/07/2006


Pesadelo

Jamais confessou aos outros que a vizinha da casa ao lado lhe punha medo. Nas noites de nevasca, ele a via pálida, com galhos de laranjeira no lugar dos braços, às vezes até com uma cenoura no nariz; mais um pouco, seus olhos tornavam-se dois grandes botões negros e ela própria ficava maior e maior... Como ninguém mais percebia? Passava as manhãs imaginando-a se derreter para tentar espantar o medo.

Escrito por . ¤ Ðïøgënë§ ¤ . às 10h08
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09/07/2006


A carta do senhor do sempre

 

Ao fim da última peça, a platéia aplaudiu discretamente a estranha orquestra sinfônica da Tanzânia. Por pouco não perdi a elegância e caí no riso quando o maestro meio-orc agradeceu as palmas com um largo sorriso que exibiu suas presas amarelas medonhas e assustou uma senhora na primeira fila. Será que aquela gente fazia idéia de onde fica a Tanzânia? Bom, certamente não passariam as férias lá depois de ver aquela pianista que tinha duas mãos para tocar e uma outra só para cutucar as orelhas, ou aqueles violinistas de narizes desproporcionalmente grandes. Se bem que, por outro lado, os argentinos também têm narizes desproporcionalmente grandes, e ainda assim é chique ir a Buenos Aires nas férias. É isso, fui injusto com a Tanzânia.

Quando me retirava da sala, o homem de meia idade que me observara gravemente durante a apresentação se aproximou ao ponto de uma fileira de distância. No momento em que nos cruzamos, disse sem olhar diretamente para mim:

– Caminhos amargos...

– ... à sombra do moinho. – respondi também sem olhar para ele. – Trouxe a carta comigo. Quer levá-la agora?

– Os planos mudaram. A carta não estará mais segura aqui, e você também não – com a mão sobre minhas costas, forçou-me desconfortavelmente a andar. – Viu as criaturas? Por mais ridículas que sejam, já nem têm mais o trabalho de se esconder.

– Pensei que tivéssemos tudo sob controle! – disse olhando em volta, confesso que um pouco assustado.

– Haverá um carro esperando por você na saída, ele o levará ao aeroporto. O motorista tem uma passagem para o sul e... vamos andar mais depressa – agora ele olhou para os lados, preocupado –, o vôo parte em menos de uma hora.

– Mas as minhas coisas estão no hotel!

– Tentamos pegá-las para você, mas eles puseram fogo no hotel antes. Havia algo importante lá? – já descíamos as escadas fora do prédio.

– Não. Quero dizer – eu estava nervoso –, eram coisas pessoais. Isso é ridículo! Estamos fugindo de criaturas medíocres!

Paramos frente a um carro preto. A porta se abriu e ele me empurrou para dentro. Bateu a porta e depois se curvou, passando a cabeça pelo vidro entreaberto.

– Metade dos nossos melhores homens foram mortos desde a noite passada – disse –, e a outra metade não deve passar de hoje à noite. Reze para não derrubarem seu avião e esconda-se. Nós te acharemos. Se ninguém te procurar em seis meses, queime a carta.

O motorista deu a partida.

– Desde já se considere um homem morto.

Ele se afastou da janela e o carro começou a andar. Nos olhamos até a primeira curva, até nos perdermos de vista.

Escrito por . ¤ Ðïøgënë§ ¤ . às 19h25
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02/07/2006


A bruma e o fim

Atravessando novamente o caminho das folhas secas, sob o arco feito pelos galhos das macieiras, o bravo guardião do amanhecer dava os últimos passos na condição de guia. Pouco atrás dele vinha Mariana, com os braços cruzados e tentando pensar em qualquer outra coisa para não chorar.

– Meus poderes não vão além daqui – disse o guardião. – Já é capaz de seguir sozinha?

Mariana olhou além das árvores e viu se aproximar o nevoeiro onde as coisas se contradizem.

– Sim, daqui por diante é só dar atenção ao que não for absurdo demais para ser verdade.

– Pois então tome mais cuidado! As verdades podem ser as mais absurdas, e as mentiras as coisas que menos se imagina. E saiba que eu sinto muito – sua voz se atenuou um pouco. –  Espero que um dia, no seu mundo... você não me odeie tanto quanto agora.

– No meu mundo você não existe, e nem esse lugar! – disse Mariana já sentindo os olhos cheios de lágrimas.

– Sinto muito mesmo por tudo. Quer me devolver o colar? Ele não deve ir para o outro lado.

– Claro! Ele e aquela noite foram mentiras também... – ela começou a chorar –. Adeus, Lamhyr!

O guardião do amanhecer tinha o colar nas mãos enquanto observava a jovem desaparecer depois das árvores, onde a verdade nasce e morre. Sentia-se triste, e para alguém que é uma mentira, uma tristeza de mentira dói como se fosse de verdade.

Escrito por . ¤ Ðïøgënë§ ¤ . às 12h54
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28/06/2006


Cinco ao vento e uma a Vredsk

– Ouçam, eu sei que essa coisa toda é muito importante – disse Paula baixinho enquanto espiava discretamente se havia alguém no corredor do antiquário que pudesse vê-los. – Só não sei por que tivemos que ler tanto sobre espadas! Bem, não estou reclamando, mas será que era mesmo necessário saber tudo aquilo sobre formatos de lâminas e adornos de cabos?

– Pensei um pouco nisso também – respondeu Rafael comparando o desenho na página arrancada do livro da dona Carola com as bainhas orientais das espadas enfileiradas na parede.

– Eu acho que sim – opinou Leandro. Quanto mais soubermos, melhor. Já pensou se roubarmos a espada errada?

– Não me lembre que estamos roubando! – Paula choramingou. – Se formos pegos, minha mãe me manda de volta para o convento!

– Shh! – Rafael chamou a atenção dos outros dois. – Encontrei! Só pode ser esta! Vejam a Cruz Bizantina gravada na ponta – os três se espremeram para olhar e concordaram que o desenho em alto-relevo era igual ao da figura no papel. – Vamos desembainhar e conferir a inscrição. Depois, dar o fora daqui com ela!

Paula e Leandro olharam por sobre os ombros, preocupados que alguém pudesse vê-los, enquanto Rafael habilmente desatava o nó do cordão que prendia a espada a uma prateleira. Quando ele empurrou a bainha com o polegar, os garotos ouviram um estralo e a espada tremeu, como se estivesse viva e não quisesse ser incomodada. Rafael se assustou e a embainhou novamente. Ela voltou a parecer só uma espada velha. Não deu para ver a inscrição, mas só podia ser aquela a espada que estavam procurando.

Escrito por . ¤ Ðïøgënë§ ¤ . às 15h33
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24/06/2006


A Caminho de Budapeste

– Nunca nos falamos na igreja. Achei que não gostasse de mim... aí acabei não gostando de você também – ela o provocou. O trem passava por outro milharal.

– Você me ouviu? – insistiu a menina.

– Ouvi – respondeu o outro sem tirar os olhos do livro. – Sou mudo, surdo ainda não.

Escrito por . ¤ Ðïøgënë§ ¤ . às 14h40
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O tesouro da montanha

Tirava as folhas secas da cabeça do anão, esperando que minha mãe saísse logo do jardim.

Ai! – reclamou ele. – Cuidado aí, moleque! Corto sua cabeça com meu machado se me der outro tapa desses!

Psiu! – minha mãe por pouco não flagrou seu anão de louça esfregando a cabeça. – Não se mexa tanto! Ela está entrando em casa, pode continuar falando agora.

– Pois então, o Farfã de uma orelha só... São todos maus sujeitos os Farfãs, e aquele não era nem de longe o pior deles. Não sei até quando esse meu disfarce ridículo vai impedir que me tragam uma intimação, então escute bem: eles estão atrás da minha bolsa!

– Intimação? – a palavra era nova para mim.

– É um chamado, e eu como anão não posso recusá-lo em nenhuma circunstância. Se eu receber uma intimação, estará tudo acabado! Por isso guarde a minha bolsa para mim até o próximo arco-íris. Quando ele aparecer eu poderei atravessá-lo e fugir para um lugar seguro. E juro pela minha barba que uma parte do ouro será sua!

– É melhor parar de falar, senhor anão! Minha mãe está vindo... – Voltei a retirar as folhas, mas não escondia minha excitação.

– Tudo bem, mas vá com cuidado! Onde já se viu um anão das montanhas do norte precisar ser limpo...

Escrito por . ¤ Ðïøgënë§ ¤ . às 14h31
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